O texto tem a interpretação de quem o lê

escreverSempre considero importante voltar a repetir essa minha constante afirmação: “o texto sempre tem a interpretação de quem o lê e dificilmente de quem o escreve”. Já expliquei minuciosamente essa colocação em muitas aulas que ministrei. Porém confesso não saber mais se a citação é de algum autor ou se é minha; já a absorvi. Por isso, peço desculpas ao possível autor e licença para continuá-la usando sempre que perceber essa verdade, não absoluta, claro, mas uma importante verdade no dia a dia de qualquer redator.


Mas nesse meu novo post, achei interessante analisar melhor o porquê essa “verdade” acontece com certa frequência. Vários podem ser os motivos. Entre eles, destaco: o texto não condiz com a faixa etária ou momento de vida de quem o lê, portanto o leitor se dispersa e acaba assimilando apenas o que acredita entender; ou o texto é muito rebuscado e, cá entre nós, às vezes, nem o autor entende após escrevê-lo; ou então, porque quem o lê não quer assimilar o fato implícito no conteúdo. Melhor explicando: as questões ou conceitos apresentados mexem com o âmago do leitor, e esse não está preparado para enfrentar, embora no seu pré-consciente entenda perfeitamente o que o autor quis dizer. Porém, concordar com quem escreve exige uma reflexão que esse leitor não está disposto a fazer naquele momento. Até aí, eu acho interessante, afinal, cada ser humano tem que saber o seu exato momento de “virar a própria vida”.

foucault72_1

“Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo” (Michel Foucault)

Claro que já passei várias vezes por essa questão e interpretei o texto de acordo com o meu momento vivido. Um exemplo foi a primeira vez que li Foucault. Aos 18 anos, discordei em tudo com ele. E na minha ignorância fui seguindo afirmando que não gostava do autor. No entanto, reli os seus textos muitos anos depois e fiquei maravilhada. Óbvio: com 18 anos não estava preparada para mexer em conceitos que foram impostos a mim, e as afirmações do autor me deixaram confusa, porque no meu âmago, eu sabia que eram verdades que eu deveria enfrentar e “revolucionar na minha vida”.

Agora, o que é intrigante e exige sim uma reflexão de todos, independentemente de sermos autores e/ou leitores, é quando o leitor, além de não compreender o texto, inicia um debate não inteligente e não saudável na tentativa agressiva de provar para o autor que a sua interpretação é a correta e afirmando como se fosse “o senhor absoluto da verdade” do outro, ou seja, querendo transforma a sua verdade na do outro.

sartre

“Cada homem deve inventar o seu caminho” (Jean-Paul Sartre)

Escrever é uma arte, mas entender a essência de um texto e aceitá-lo, mesmo quando não concordamos com o mesmo, é sabedoria. Para citar um dos meus filósofos preferidos, o francês Jean-Paul Sartre: “escrever é um ato solitário”. Talvez um dos atos mais solitários que praticamos. Uma solidão maravilhosa. Um momento para nos conhecer. Um momento único da própria contemplação. Escrever é o melhor exercício que a mente desenvolve. É a ‘tangibilização’ dos pensamentos. É o reflexo do nosso espelho interior.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *